O carro-chefe deste humilde e belíssimo websítio é o programa Abertura Total. Claro, programas solitários não são novidade. Tampouco os curtos. O formato existe desde quando a mídia dominante do áudio era o rádio.

Mas no que diz respeito ao Abertura Total propriamente dito, é uma ideia velha. Especialmente do ponto de vista estético.

A música de fundo, “Better Go” de Ben Webster & Sweets Edison, é paixão antiga. Na virada dos anos 90 para os 00, estava curioso sobre jazz e emprestei do meu pai um CD deles. Gostei tanto que nunca mais devolvi o álbum; para satisfação do coroa, que até então desconhecia o lado limpo, leve e bonito de meu palato musical.

A partir de 2006, fiz um pequeno investimento em meu proto-estúdio caseiro de áudio. Comprei de um amigo um par de monitores Samson e uma placa de som Delta 1010LT. Com o dinheiro restante, comprei um pre-amplificador e uma mesinha de mixagem Behringer. Coroando o setup, ganhei do meu amigo Gleicon um excelente microfone Superlux.

Munido desse equipamento, tive dois anos bastante produtivos. Criava batidas, gravava vozes, mixava e masterizava tudo em casa. Em 2008, se encerraram as atividades musicais. E lá estava eu, com um equipamento consideravelmente decente, vontade de produzir, mas interesse algum por voltar a mexer com música.

Lembrei-me de trabalhos que fiz na faculdade, para Radiojornalismo, na qual quebrava constantemente as regras de formatação para produzir peças igualmente toscas, hilariantes e recheadas com o conteúdo exigido pela professora. Lembrei-me do quão bem fui naquela matéria. Levei em consideração o meu crescente e intenso amor por esquetes cômicos em áudio.

Assim, decidi fazer uso de meu equipamento para produzir a primeira forma do Abertura Total. O nome simplesmente veio. A estética de café, cigarros, meia-luz imaginária e jazz é algo que sempre resoou em mim, mesmo quando ainda desconhecia o gênero musical.

Nessa primeira forma do Abertura Total, me pus como um personagem chamado Rafael Mordente. Um ex-menor delinquente que se tornou guru de  autoajuda e cuja patologia para mentiras lhe rendera registro na Polícia Federal — e portanto, a obrigatoriedade de mencionar isso antes de todo programa. Assim, o personagem recebia ligações telefônicas de ouvintes com problemas esdrúxulos. Após alguns momentos de filosofia imbecil, propunha soluções ainda piores para resolve-los.

O contexto servia como base para que eu pudesse purgar o resto de humor negro que ainda restava em mim. Ainda gosto da ideia, mas o resultado da produção não me agradou. Me pareceu forçado, então decidi apagar. As poucas pessoas que tiveram contato com isso discordam. Respeito e aprecio o bom feedback, reconheço o valor do experimento, mas realmente não me agradou o bastante para querer continuar.

Sempre gostei de interpretar personas e personagens. De elaborar contextos e universos dentro dos quais linguagens e maneiras de pensar se formassem por completo.

Passada pouco mais de uma década, me vi numa  situação não tão incomum, mas peculiar: após me dedicar por tanto tempo a essa forma de construção artística, meio que me perdi de quem sou de verdade. Isso acabou afetando todos os aspectos da minha vida. Continuava a par de minhas habilidades e limitações, mas não conseguia mais ver o ponto de origem disso tudo.

Por forças circunstanciais dos últimos seis anos, me vi figurativamente despido. A atividade artística e humorística que mais me deu experiência e reconhecimento definhou por anos até acabar de vez. Um alívio feito de tristeza, mas ainda assim um alívio.

Paralelamente, debutei como comediante propriamente dito nos palcos e em vídeo. Tudo que realizei a partir dessa experiência e reconhecimento não fruiu como achávamos que deveria. Tudo sempre realizado em equipe. Coisas deliciosas de se fazer, mas que para mim, em nada contribuíam para a resolução do problema original: me ver como um desconhecido.

As ideias que tive para produzir sozinho foram apaixonantes, mas se revelaram mais como empecilhos do que como hobbies saudáveis ou pretensões de uma vida autônoma, dependente apenas de meus próprios recursos. Mais uma vez, experiências sensacionais, mas desprovidas daquele “tchan” que me dá vontade de manter a disciplina e a regularidade. Fosse nos palcos, na música ou em vídeo, tudo parecia trabalhoso demais para continuar não me satisfazendo.

Sempre tive a mania de me autoanalisar. Tanto sozinho, dentro da minha própria cabeça, quanto por escrito. Porém, sempre abominei a ideia de fazer disso uma fonte para minhas competências artísticas. Sempre foi de dentro para dentro. Enquanto isso, ao mesmo tempo, me virava para produzir arte de dentro para fora. Sempre senti necessidade por criar os já mencionados contextos, linguagens e formas de pensar. Nunca quis fazer de mim mesmo parte de minhas criações.

“Porra, quem sou eu pra me achar interessante a esse ponto? Que relevância tenho como pessoa, fora de círculos próximos? O que eu crio me precede. Eu tenho mais é que ficar na minha”.

Revisitei tudo que fiz desde que aprendi a produzir no computador. Músicas, esquetes, roteiros, crônicas, vídeos, fotomontagens, desenhos. Como espectador, apreciei. E parei por aí. Não valia mais a pena enxergar tudo aquilo como criador. Ainda que desconfortavelmente despido no presente momento, revisitar o passado como criador seria me jogar no mesmo labirinto de sempre.

E aí esbarrei no Abertura Total de novo. Não o produto que rejeitei, mas o conceito pelo qual me apaixonei. O formato. A estética. Levei em consideração os 2 anos de podcast no Decrépitosdo qual não saí, inclusive, só pra esclarecer. A experiência prática como podcaster me deu a constatação de que, ainda sem me sentir dono de uma identidade, já ando exercitando a musculatura responsável pela caminhada errante desse Mordente despido.

Quer dizer, não totalmente despido. Vestir o nome The Brazilian Rafael Mordente me basta para que eu não morra de frio.

E se tenho aversão a falar de mim mesmo, bem, grandes bosta. Se eu quero um ponto de partida para algo só meu, algo que não ative a velha fórmula de confusão e desistência… agora é tudo que eu tenho.

Existir. É só o que tenho.

A mais velha das ideias.

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The Brazilian Rafael Mordente

The Brazilian Rafael Mordente é um artista brasileiro que presta tributo ao poeta luso-português Rafael Mordente (1812-2010).